quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meu pouco francês

Eu gosto muito de estar em lugares onde não entendo a língua.
Sinto que me liberto um pouco da linguagem verbal e crio espaço para prestar atenção em outros signos.

Ontem minha amiga postou no Facebook uma reflexão sobre a palavra "iludido". Ela não estava questionando o significado da palavra, mas apenas o som e os movimentos que fazemos com a boca e lingua para produzir o som "iludido". Pois bem, quando estou em um país onde não entendo a língua, me rodeio de sons e sensações.

Presto atenção nas expressões faciais e em como os sons saem de uma pessoa e chegam em outra. Ou muitas outras. Presto atenção nas palavras chave, que por vezes se transformam em palavras mágicas. E noto o padrão de repetição das palavras. Repetição que imprime o cotidiano no campo semântico. Quando tem "bonjour- diálogo- bon journée" sei que é manhã. Quando capto "bon soir- diálogo- bon soirée", sei que é noite.

Quando não entendemos algo, o adjetivo usado em português é "ininteligível". Quer dizer que algo não é "inteligente" para nós? Talvez do ponto de vista da inteligência intelectual, penso. Porque imaginar, imagino muito. Muito mais do que se fosse inteligível (ou inteligente!).

Com esse post quero já alertar meu leitor de que tudo o que eu percebo e elaboro aqui passa pelo filtro da compreensão parcial da língua.(attention! pode ser que eu invente sentidos para o que vejo e escuto!) Pois, tampouco me libertei completamente do verbal, já que tenho alguma compreensão do francês. Gosto de chamá-lo de "meu pouco francês".

Brinco muito com "meu pouco francês". Ainda mais agora que percebi que as pessoas são receptivas. E gostam de acariciá-lo e puxá-lo pela mão, o que acaba por engrandecê-lo! Essa carícia é um puxão de orelha. Tem quem tenha pavor de puxão de orelha. Já eu, entendo mais como um carinho mesmo.

A primeira vez que levei um foi do funcionário da empresa de transporte urbano. Eu cheguei, usei as palavras mágicas bonjour e s'il vous plaît e demandei (que em francês quer dizer pedir!) um passe para "trãnte jours". Ele me devolveu: "treeeinte". Oui, treeeeinte jours!

Alguns dias depois, fui comprar crédito para o celular, uma recarga de "sãn-que" euros. A senhora do caixa da banca disse meio espantada meio achando graça: "saaans euro?" Nossa, como poderia ser possível um cartão de "sem euro"? Então eu tirei da manga uma mágica: mostrei a palma da mão com meus cinco dedinhos! "Ahhhhh! Seeeinque euros!". Voilà, comunicação efetuada com sucesso!

O surpresa do dia, porém, veio do encontro com uma senhorinha no ônibus. Ela chegou, sentou-se ao meu lado e disse que o ônibus sairia às 18:15. Eu então peguei o celular, vi que eram 18:11 e disse "ah, quatre minuits". Ela na hora perguntou de onde eu vinha, Brèsil, e o motivo de eu estar em Marseille. Disse, botando o "meu pouco francês" para brincar, que "pour visiter mon copain." Ela imediatamente falou: "Non, tu visite une cathedrale! Pour voir (com os dedos apontando para os olhos) ton copain!"Ah! Então nós visitamos catedrais e "vemos" o namorado! E assim seguimos, com ela me interrompendo a cada duas palavras para corrigir a pronúncia ou tempo verbal! Eu estava adorando! Sou professora de línguas e acho que essa é a maior atenção que um professor pode ter com um aluno. Não resisti e perguntei : "Vous êtes professeur?" Non! Eu devolvi, não verbalmente,"mas poderia ser"!!

Desci do ônibus, gaguejei para perguntar onde era o teatrrrê para duas meninas, que falaram para eu segui-las enquanto íamos conversando (meu pouco francês dava pulinhos de alegria!). Tomei um velouté antes de entrar e, a essas alturas o pouco francês queria mesmo era se jogar, resolvi comentar com o garçon que "o velouté (quando perguntei "que est..." querendo saber o sabor, ele me disse que "era como uma sopa"...) era menos épicé que a sopa, né?" Épicé???? Lá vai a mão de novo fazer gesto de fino/grosso. "Ahhh! Épais (leia êpê)!!" Sim, é mesmo como uma sopa mas, menos grossa! E sabe o que é épicé? Apimentado!

A peça foi um desastre- para mim! Fui esperando um espetáculo clown e nem quis ler a sinopse para não ficar antecipando sentidos já apontados pelo texto. Ò, que furada! Não era bem clown, já que era uma parceria entre uma companhia francesa e uma egípcia (e não tem clown no Egito!), mas dois atores num diálogo íntimo com quase nenhuma movimentação.O "pouco francês" ficou super entediado e confesso que aproveitou que estava quentinho e tinha tomado um vinho e acabou cochilando!

Não, esse tipo de espetáculo simplesmente não é indicado para pessoas que não sejam fluentes na língua. E mais, como me alertou minha amiga colombiana que mora em Marseille há seis anos: nesses casos, é preciso entender marseillaise, um dialeto quase! O sotaque daqui é realmente bem acentuado e motivo de orgulho local. Meu namorado me falou que eles adoram puxar a orelha dos parisienses!

E sigo, sigo... Sigo as pistas, os sons...Os gestos! Esse fim de semana vou para um festival de gestos! Acho que "o pouco francês" vai se deliciar!







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