terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
C´est la vie
-C´est la vie.
Repetia com resignação. A expressão lhe caia bem.
-Asile politique.
Respondeu quando perguntado o que estava fazendo na França. Pediu para que falassem francês devagar, assim seria mais fácil compreender. Não, não precisa falar inglês. Ele quer treinar o francês.
Trabalhei junto com ele durante a manhã em um workshop de construção de um jardim no Pólo Cultural La Friche la Belle de Mai, uma antiga fábrica de tabaco que virou um lugar de convergência cultural e de convivência social. Nosso grupo era bem internacional. Desconfio que o único de todos os cinco grupos. Uma franco-colombiana e seu marido colombiano, eu- de férias na cidade- e ele, um russo que nunca mais vai poder voltar pra Rússia.
Depois do almoço, reencontrei Magal antes de voltarmos ao trabalho. Fiquei olhando para ele, sem saber como puxar assunto. Os olhos, nesses casos, costumam cumprir a função.
-Err,hum..In English, ok? I speak better English than French.
Nem lembro o que falamos. Eu queria mesmo saber quem era ele, porque ele estava ali, como era sua a vida e o que aconteceria com ele.
Sim, lembrei. Perguntei se ele gostava de jardinagem.
-Não muito, mas melhor do que não fazer nada.
Ele não faz muita coisa. Não tem visto de trabalho, mora num bairro do subúrbio no norte da cidade e faz aulas de francês duas vezes por semana em centros de ajuda social. Para ele, estar ali era lucro.
Me contou que tinha tentado se envolver com o MP2013 (a organização oficial da "Capital Cultural Européia"), para trabalhar de alguma forma (ainda que fosse voluntariamente), mas que nunca tinha recebido nenhum retorno dos contatos através do site.
Me falou um pouco da sua vida passada.
Sim, vida passada.
Foi russo, tinha uma família e trabalhava com informática. Me disse que sua antiga terra (acho que é a Chechênia) está infectada de corrupção e é alvo de interesses de muitos países vizinhos e de outros além-mar. Que o governo russo não tenta resolver os problemas.
C´est la vie, dizia.
- Hum...Quer dizer, você nunca mais vai poder voltar para a Rússia?
-Acho que não. Vamos ver. Deixar o tempo passar e ver se alguma coisa muda.
Esperança?
Não consegui esquecer a cara do Magal... E as histórias de múltiplas vidas em uma só existência...E a ideia dos territórios, que provavelmente deu origem aos conflitos políticos que resultam em um ser humano ser arrancado de sua terra...
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