terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Matamore
Bem íntimo é bem empolgante. No circo também.
Debaixo da lona (chapiteau, em francês, o que me remete a, e lembra mesmo, um chapéu), o palco redondo era abaixo de nós. Dois metros abaixo e no máximo cinco de diâmetro. "Ainda bem que sentei na segunda fileira", pensei quando o espetacular pequeno Chaplin começou a relinchar seu chicote!
Com precisão extraordinária - um dos ingredientes do bom circo, começo a perceber - o chicote jogou para os ares cada uma das flores que um clown anteriormente posicionou na borda elevada do palco. Da última, até saiu faísca! Mas o chicote estava doido e queria mais. O homem coberto de uma espécie de armadura de coelho feita de jornal entrou em cena para perder braços, dedos, nariz pontudo e até as orelhas! Depois, o bichinho voltou com uma vassoura atravessada no tronco e fez palhaçadas até conseguir, com um toco de braço, limpar seus membros picotados.
A transição é outro elemento que faz toda a diferença em um espetáculo de circo. Um número dá origem a outro e nada se perde, tudo se transforma. Como quando três clowns fazem uma coreografia com escadas enquanto montavam a barra na qual um boneco de papel mâché fez a sequência de piruetas mais insana que já vi. Justamente, ele era um boneco e não, não girava só para um lado.
Intimidade é o que vi na dupla de acrobatas e trapezistas. Simetria complementar. Ele grande, ela pequena. Ele pesado, ela uma pena. Ele loiro e barbudo, ela com plumagem de ave vermelha. Ela? Não sei se é ela mesmo... Andrógino.
O último número poderia se chamar "Vertigem Aérea". A “pena” fez mortais no ar e a cada giro o parceiro não deixava de buscar suas mãos. Medo? Eu tenho muito medo das acrobacias aéreas. Quase que fecho os olhos, ranjo os dentes e seguro firme na cadeira a cada voo. Quando dá certo, respiro aliviada. Durante todo o espetáculo, o grandão já tinha jogado a “pena” pra cima, pro lado, com uma mão só. E ela já tinha voado pelos cantos. Foi muito bonito quando eles fizeram esse jogo de opostos complementares ao som do violoncelo, lindamente tocado pelas mesmas mãos que manipularam o boneco.
Uma briga de clowns muito engraçada chegou em boa hora para dar alívio a toda a movimentação que me tirava o fôlego! Um dos palhaços, o de língua presa, chegou dizendo que estava ali só para ver o número do cachorrinho. Daí se desenrolou a confusão. Que acabou em marmelada, é claro.
Para surpresa de todos, num é que veio mesmo um cachorrinho? E andou com duas patas, saltou dentro de arcos e fez tudo o que cachorrinhos fazem em programas de auditório.
Também tinha um malabarista que brincava com revólveres. O disparo, quando veio, anunciou o fim do espetáculo expressionista.
É o que dizia no folheto "uma espécie de teatro expressionista singular".
Teatro sim. Circo sim. Expressionista... Só tenho essa referência relacionada às artes plásticas. "Forte". "Cores vibrantes". "Sentimentos saltando pela boca".
Figurino em preto, vermelho e branco. Música impostada. Tudo muito bem explosivo e estonteante.
MATAMORE: o que se infla como corajoso. Na commedia dell´arte, é o personagem que ama o excesso e a temeridade.
Bem expressionista!
*Um casal de velhinhos de uns 70 anos sentou-se ao meu lado. Já de início me impressionaram, pois pularam as grades de ferro para chegar até a minha fileira. Durante o espetáculo, a senhorinha batia palmas, suspirava e gritava "C´est bien!, "Bravo!", "Uh la la!","Extradionaire!". Precisa entrevistar? Muitas vezes, dou mais valor às expressões e ações que reparo nas pessoas do que nas respostas à pergunta "O que você achou do espetáculo?".
C´est la vie
-C´est la vie.
Repetia com resignação. A expressão lhe caia bem.
-Asile politique.
Respondeu quando perguntado o que estava fazendo na França. Pediu para que falassem francês devagar, assim seria mais fácil compreender. Não, não precisa falar inglês. Ele quer treinar o francês.
Trabalhei junto com ele durante a manhã em um workshop de construção de um jardim no Pólo Cultural La Friche la Belle de Mai, uma antiga fábrica de tabaco que virou um lugar de convergência cultural e de convivência social. Nosso grupo era bem internacional. Desconfio que o único de todos os cinco grupos. Uma franco-colombiana e seu marido colombiano, eu- de férias na cidade- e ele, um russo que nunca mais vai poder voltar pra Rússia.
Depois do almoço, reencontrei Magal antes de voltarmos ao trabalho. Fiquei olhando para ele, sem saber como puxar assunto. Os olhos, nesses casos, costumam cumprir a função.
-Err,hum..In English, ok? I speak better English than French.
Nem lembro o que falamos. Eu queria mesmo saber quem era ele, porque ele estava ali, como era sua a vida e o que aconteceria com ele.
Sim, lembrei. Perguntei se ele gostava de jardinagem.
-Não muito, mas melhor do que não fazer nada.
Ele não faz muita coisa. Não tem visto de trabalho, mora num bairro do subúrbio no norte da cidade e faz aulas de francês duas vezes por semana em centros de ajuda social. Para ele, estar ali era lucro.
Me contou que tinha tentado se envolver com o MP2013 (a organização oficial da "Capital Cultural Européia"), para trabalhar de alguma forma (ainda que fosse voluntariamente), mas que nunca tinha recebido nenhum retorno dos contatos através do site.
Me falou um pouco da sua vida passada.
Sim, vida passada.
Foi russo, tinha uma família e trabalhava com informática. Me disse que sua antiga terra (acho que é a Chechênia) está infectada de corrupção e é alvo de interesses de muitos países vizinhos e de outros além-mar. Que o governo russo não tenta resolver os problemas.
C´est la vie, dizia.
- Hum...Quer dizer, você nunca mais vai poder voltar para a Rússia?
-Acho que não. Vamos ver. Deixar o tempo passar e ver se alguma coisa muda.
Esperança?
Não consegui esquecer a cara do Magal... E as histórias de múltiplas vidas em uma só existência...E a ideia dos territórios, que provavelmente deu origem aos conflitos políticos que resultam em um ser humano ser arrancado de sua terra...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
A sirene do meio dia
Despertamos. Algo chama de dentro.
É estranho o descongelamento dos membros. Tão acolhedor é o ninho, braços e pernas cruzados.
Levantamos ainda cambaleantes, duvidosos do chão em que pisamos. Nunca mesmo estivemos lá.
Nos arrepiamos. Frio, medo, incerteza, o que será ?
Balbuciamos os primeiros sons. Ua ua uáa vibramos para chamar os outros. Que venham juntos!
A travessia é perigosa.
Mas temos que ir. Mais alto, mais além. Para onde haja calor, verde, flores, frutos.
Para onde seja primavera.
Sol a pino. Meio dia. A sirene toca. É agora. É a hora!
Quem tem o visto, venha junto. Quem não tem, também. Enquanto todos se juntam e aproveitam a corrente de vento, você vai ficar de fora por causa de burocracia ? O que te impede? Um papel ou o peso das asas coladas ao corpo ?
Todos, crianças, velhos, homens e mulheres. Não há prioridades. São todos pássaros em migração. Rumo ao Norte!
As pashiminas que esquentam o pescoço viram asas.
Vamos. Cinque, quatre, trois, deux, un, voilà!
Abram alas que vamos voar!
Os vídeos são pedaços do espetáculo do qual participei ao meio dia da quarta-feira 06 de fevereiro. O texto é minha interpretação.
"Horizondelle" é parte do programa Sirènes et midi net, que promoverá a cada primeira quarta-feira do mês apresentações em frente à L´Opéra de Marseille. São doze minutos de apresentação sempre com a participação do público. Além das três atrizes da Cia Tout Samba´l, outras quase 20 pessoas participaram como voluntários apoiando.
Uma deles é Jalila Sabri, verdadeira "mediterrânea" de origem bérbere (os povos originais do Marrocos, como os índios americanos, me corrigiu quando disse que eram os povos das montanhas) e andaluza que vive em Marseille há 13 anos. Jalila tem 34 anos, é formada em turismo e trabalha como animadora de festas. Disse que eles ensaiaram duas vezes na semana passada e que gostou muito da experiência da participação do público. Se não estiver trabalhando no próximo mês (ela também faz bicos com turismo), vai ser voluntária de novo.
"Horizondelle" é parte do programa Sirènes et midi net, que promoverá a cada primeira quarta-feira do mês apresentações em frente à L´Opéra de Marseille. São doze minutos de apresentação sempre com a participação do público. Além das três atrizes da Cia Tout Samba´l, outras quase 20 pessoas participaram como voluntários apoiando.
Uma deles é Jalila Sabri, verdadeira "mediterrânea" de origem bérbere (os povos originais do Marrocos, como os índios americanos, me corrigiu quando disse que eram os povos das montanhas) e andaluza que vive em Marseille há 13 anos. Jalila tem 34 anos, é formada em turismo e trabalha como animadora de festas. Disse que eles ensaiaram duas vezes na semana passada e que gostou muito da experiência da participação do público. Se não estiver trabalhando no próximo mês (ela também faz bicos com turismo), vai ser voluntária de novo.
Nine Rhode, mais conhecida como Adèle R "a mulher-pássaro", é criadora da Cia Tout Samba´l e acredita que o homem do século XXI será um pássaro. Os espetáculos que cria brincam com os mitos, a atualidade, a biologia e a língua dos pássaros. Quando a perguntei se ela só se apresentava na rua e porque, me disse que "gosta de brincar com todos, de brincar com a realidade, com o cotidiano da gente e da rua".
Comentei com Adèle que quando li o nome da companhia pensei em samba e ela riu. Sim, no começo, faziam batucada na rua com colheres, escovas de dente, material reciclado...Minha amiga colombiana estava me ajudando como tradutora e Adèle aproveitou para dizer que ama os pássaros da América do Sul!
O Centro Nacional de Criação Lieux Publics de Marseille organiza e apoia eventos públicos como esse. A ideia é brincar com a cidade, o que farão muito ao longo de 2013, já que Marseille é Capital Cultural da Europa.
Ah, que bom seria ver brincadeiras como essa nos espaços públicos brasileiros!
*Ah, perdoem o vídeo na vertical. Deslizes de amadora. Sim, estou convencendo alguma produtora a mandar um cinegrafista comigo! hehehe
Meu pouco francês
Eu gosto muito de estar em lugares onde não entendo a língua.
Sinto que me liberto um pouco da linguagem verbal e crio espaço para prestar atenção em outros signos.
Ontem minha amiga postou no Facebook uma reflexão sobre a palavra "iludido". Ela não estava questionando o significado da palavra, mas apenas o som e os movimentos que fazemos com a boca e lingua para produzir o som "iludido". Pois bem, quando estou em um país onde não entendo a língua, me rodeio de sons e sensações.
Presto atenção nas expressões faciais e em como os sons saem de uma pessoa e chegam em outra. Ou muitas outras. Presto atenção nas palavras chave, que por vezes se transformam em palavras mágicas. E noto o padrão de repetição das palavras. Repetição que imprime o cotidiano no campo semântico. Quando tem "bonjour- diálogo- bon journée" sei que é manhã. Quando capto "bon soir- diálogo- bon soirée", sei que é noite.
Quando não entendemos algo, o adjetivo usado em português é "ininteligível". Quer dizer que algo não é "inteligente" para nós? Talvez do ponto de vista da inteligência intelectual, penso. Porque imaginar, imagino muito. Muito mais do que se fosse inteligível (ou inteligente!).
Com esse post quero já alertar meu leitor de que tudo o que eu percebo e elaboro aqui passa pelo filtro da compreensão parcial da língua.(attention! pode ser que eu invente sentidos para o que vejo e escuto!) Pois, tampouco me libertei completamente do verbal, já que tenho alguma compreensão do francês. Gosto de chamá-lo de "meu pouco francês".
Brinco muito com "meu pouco francês". Ainda mais agora que percebi que as pessoas são receptivas. E gostam de acariciá-lo e puxá-lo pela mão, o que acaba por engrandecê-lo! Essa carícia é um puxão de orelha. Tem quem tenha pavor de puxão de orelha. Já eu, entendo mais como um carinho mesmo.
A primeira vez que levei um foi do funcionário da empresa de transporte urbano. Eu cheguei, usei as palavras mágicas bonjour e s'il vous plaît e demandei (que em francês quer dizer pedir!) um passe para "trãnte jours". Ele me devolveu: "treeeinte". Oui, treeeeinte jours!
Alguns dias depois, fui comprar crédito para o celular, uma recarga de "sãn-que" euros. A senhora do caixa da banca disse meio espantada meio achando graça: "saaans euro?" Nossa, como poderia ser possível um cartão de "sem euro"? Então eu tirei da manga uma mágica: mostrei a palma da mão com meus cinco dedinhos! "Ahhhhh! Seeeinque euros!". Voilà, comunicação efetuada com sucesso!
O surpresa do dia, porém, veio do encontro com uma senhorinha no ônibus. Ela chegou, sentou-se ao meu lado e disse que o ônibus sairia às 18:15. Eu então peguei o celular, vi que eram 18:11 e disse "ah, quatre minuits". Ela na hora perguntou de onde eu vinha, Brèsil, e o motivo de eu estar em Marseille. Disse, botando o "meu pouco francês" para brincar, que "pour visiter mon copain." Ela imediatamente falou: "Non, tu visite une cathedrale! Pour voir (com os dedos apontando para os olhos) ton copain!"Ah! Então nós visitamos catedrais e "vemos" o namorado! E assim seguimos, com ela me interrompendo a cada duas palavras para corrigir a pronúncia ou tempo verbal! Eu estava adorando! Sou professora de línguas e acho que essa é a maior atenção que um professor pode ter com um aluno. Não resisti e perguntei : "Vous êtes professeur?" Non! Eu devolvi, não verbalmente,"mas poderia ser"!!
Desci do ônibus, gaguejei para perguntar onde era o teatrrrê para duas meninas, que falaram para eu segui-las enquanto íamos conversando (meu pouco francês dava pulinhos de alegria!). Tomei um velouté antes de entrar e, a essas alturas o pouco francês queria mesmo era se jogar, resolvi comentar com o garçon que "o velouté (quando perguntei "que est..." querendo saber o sabor, ele me disse que "era como uma sopa"...) era menos épicé que a sopa, né?" Épicé???? Lá vai a mão de novo fazer gesto de fino/grosso. "Ahhh! Épais (leia êpê)!!" Sim, é mesmo como uma sopa mas, menos grossa! E sabe o que é épicé? Apimentado!
A peça foi um desastre- para mim! Fui esperando um espetáculo clown e nem quis ler a sinopse para não ficar antecipando sentidos já apontados pelo texto. Ò, que furada! Não era bem clown, já que era uma parceria entre uma companhia francesa e uma egípcia (e não tem clown no Egito!), mas dois atores num diálogo íntimo com quase nenhuma movimentação.O "pouco francês" ficou super entediado e confesso que aproveitou que estava quentinho e tinha tomado um vinho e acabou cochilando!
Não, esse tipo de espetáculo simplesmente não é indicado para pessoas que não sejam fluentes na língua. E mais, como me alertou minha amiga colombiana que mora em Marseille há seis anos: nesses casos, é preciso entender marseillaise, um dialeto quase! O sotaque daqui é realmente bem acentuado e motivo de orgulho local. Meu namorado me falou que eles adoram puxar a orelha dos parisienses!
E sigo, sigo... Sigo as pistas, os sons...Os gestos! Esse fim de semana vou para um festival de gestos! Acho que "o pouco francês" vai se deliciar!
Sinto que me liberto um pouco da linguagem verbal e crio espaço para prestar atenção em outros signos.
Ontem minha amiga postou no Facebook uma reflexão sobre a palavra "iludido". Ela não estava questionando o significado da palavra, mas apenas o som e os movimentos que fazemos com a boca e lingua para produzir o som "iludido". Pois bem, quando estou em um país onde não entendo a língua, me rodeio de sons e sensações.
Presto atenção nas expressões faciais e em como os sons saem de uma pessoa e chegam em outra. Ou muitas outras. Presto atenção nas palavras chave, que por vezes se transformam em palavras mágicas. E noto o padrão de repetição das palavras. Repetição que imprime o cotidiano no campo semântico. Quando tem "bonjour- diálogo- bon journée" sei que é manhã. Quando capto "bon soir- diálogo- bon soirée", sei que é noite.
Quando não entendemos algo, o adjetivo usado em português é "ininteligível". Quer dizer que algo não é "inteligente" para nós? Talvez do ponto de vista da inteligência intelectual, penso. Porque imaginar, imagino muito. Muito mais do que se fosse inteligível (ou inteligente!).
Com esse post quero já alertar meu leitor de que tudo o que eu percebo e elaboro aqui passa pelo filtro da compreensão parcial da língua.(attention! pode ser que eu invente sentidos para o que vejo e escuto!) Pois, tampouco me libertei completamente do verbal, já que tenho alguma compreensão do francês. Gosto de chamá-lo de "meu pouco francês".
Brinco muito com "meu pouco francês". Ainda mais agora que percebi que as pessoas são receptivas. E gostam de acariciá-lo e puxá-lo pela mão, o que acaba por engrandecê-lo! Essa carícia é um puxão de orelha. Tem quem tenha pavor de puxão de orelha. Já eu, entendo mais como um carinho mesmo.
A primeira vez que levei um foi do funcionário da empresa de transporte urbano. Eu cheguei, usei as palavras mágicas bonjour e s'il vous plaît e demandei (que em francês quer dizer pedir!) um passe para "trãnte jours". Ele me devolveu: "treeeinte". Oui, treeeeinte jours!
Alguns dias depois, fui comprar crédito para o celular, uma recarga de "sãn-que" euros. A senhora do caixa da banca disse meio espantada meio achando graça: "saaans euro?" Nossa, como poderia ser possível um cartão de "sem euro"? Então eu tirei da manga uma mágica: mostrei a palma da mão com meus cinco dedinhos! "Ahhhhh! Seeeinque euros!". Voilà, comunicação efetuada com sucesso!
O surpresa do dia, porém, veio do encontro com uma senhorinha no ônibus. Ela chegou, sentou-se ao meu lado e disse que o ônibus sairia às 18:15. Eu então peguei o celular, vi que eram 18:11 e disse "ah, quatre minuits". Ela na hora perguntou de onde eu vinha, Brèsil, e o motivo de eu estar em Marseille. Disse, botando o "meu pouco francês" para brincar, que "pour visiter mon copain." Ela imediatamente falou: "Non, tu visite une cathedrale! Pour voir (com os dedos apontando para os olhos) ton copain!"Ah! Então nós visitamos catedrais e "vemos" o namorado! E assim seguimos, com ela me interrompendo a cada duas palavras para corrigir a pronúncia ou tempo verbal! Eu estava adorando! Sou professora de línguas e acho que essa é a maior atenção que um professor pode ter com um aluno. Não resisti e perguntei : "Vous êtes professeur?" Non! Eu devolvi, não verbalmente,"mas poderia ser"!!
Desci do ônibus, gaguejei para perguntar onde era o teatrrrê para duas meninas, que falaram para eu segui-las enquanto íamos conversando (meu pouco francês dava pulinhos de alegria!). Tomei um velouté antes de entrar e, a essas alturas o pouco francês queria mesmo era se jogar, resolvi comentar com o garçon que "o velouté (quando perguntei "que est..." querendo saber o sabor, ele me disse que "era como uma sopa"...) era menos épicé que a sopa, né?" Épicé???? Lá vai a mão de novo fazer gesto de fino/grosso. "Ahhh! Épais (leia êpê)!!" Sim, é mesmo como uma sopa mas, menos grossa! E sabe o que é épicé? Apimentado!
A peça foi um desastre- para mim! Fui esperando um espetáculo clown e nem quis ler a sinopse para não ficar antecipando sentidos já apontados pelo texto. Ò, que furada! Não era bem clown, já que era uma parceria entre uma companhia francesa e uma egípcia (e não tem clown no Egito!), mas dois atores num diálogo íntimo com quase nenhuma movimentação.O "pouco francês" ficou super entediado e confesso que aproveitou que estava quentinho e tinha tomado um vinho e acabou cochilando!
Não, esse tipo de espetáculo simplesmente não é indicado para pessoas que não sejam fluentes na língua. E mais, como me alertou minha amiga colombiana que mora em Marseille há seis anos: nesses casos, é preciso entender marseillaise, um dialeto quase! O sotaque daqui é realmente bem acentuado e motivo de orgulho local. Meu namorado me falou que eles adoram puxar a orelha dos parisienses!
E sigo, sigo... Sigo as pistas, os sons...Os gestos! Esse fim de semana vou para um festival de gestos! Acho que "o pouco francês" vai se deliciar!
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Mesdames et Messieurs, le Circô
Nem lona
nem elefante
nem mesmo palhaço de nariz vermelho
"La dolce casa"
era uma casa muito engraçada
não tinha teto
não tinha nada
cenário de peça de teatro
música de primeira
objetos entulhados
ganham sentido
os guarda-chuvas
chovem papéis coloridos
como se fossem folhas no outono
o monte de sapatos
vira canteiro de flor
e na primavera
as árvores se acendem em cor!
bailando como o vento
e caindo como a água
as estações passam
e a gente de rua
sem casa
sem teto
nem nada
pula
salta
se contorce
faz malabarismo
e palhaçada!
Da companhia italiana Karakasa Circus, com acrobatas russos e romenos,"La dolce casa" faz parte do projeto Homeless. Foi o primeiro espetáculo de circo contemporâneo que assisti aqui. No primeiro mês como Capital Cultural, o circo é a atração em Marseille. Tem clowns, tem acrobacia, mistura de dança com teatro e muita magia!
nem elefante
nem mesmo palhaço de nariz vermelho
"La dolce casa"
era uma casa muito engraçada
não tinha teto
não tinha nada
cenário de peça de teatro
música de primeira
objetos entulhados
ganham sentido
os guarda-chuvas
chovem papéis coloridos
como se fossem folhas no outono
o monte de sapatos
vira canteiro de flor
e na primavera
as árvores se acendem em cor!
bailando como o vento
e caindo como a água
as estações passam
e a gente de rua
sem casa
sem teto
nem nada
pula
salta
se contorce
faz malabarismo
e palhaçada!
Da companhia italiana Karakasa Circus, com acrobatas russos e romenos,"La dolce casa" faz parte do projeto Homeless. Foi o primeiro espetáculo de circo contemporâneo que assisti aqui. No primeiro mês como Capital Cultural, o circo é a atração em Marseille. Tem clowns, tem acrobacia, mistura de dança com teatro e muita magia!
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